Flávio e Lula
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Do Bolsa Família à maioridade penal: veja o que Flávio Bolsonaro e Lula mudaram em seus discursos

Flávio Bolsonaro e Lula em entrevista com Renata Lo Prete — Foto: Globo/ Manoella Mello

Os candidatos à Presidência da República Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) mudaram de posição sobre temas que vão de programas sociais à segurança pública. As mudanças de discurso e posicionamento podem ser identificadas em entrevistas, debates, publicações nas redes sociais e decisões tomadas ao longo de suas trajetórias políticas, inclusive durante a campanha eleitoral de 2026.

Entre os exemplos estão as críticas de Flávio ao Bolsa Família em publicações apagadas do X. Na campanha deste ano, o senador passou a defender o programa. Lula, por sua vez, criticou em 2015 a possibilidade de adolescentes serem presos. No segundo turno de 2026, passou a defender a redução da maioridade penal para crimes hediondos.

As mudanças também incluem o apoio de Flávio ao fim da escala 6×1 durante a campanha e a posição do governo Lula sobre a chamada “taxa das blusinhas”, adotada em 2024 e alvo de uma iniciativa para revogá-la em 2026.

Em alguns casos, os próprios presidenciáveis reconheceram que mudaram de opinião. Em outros, as diferenças aparecem na comparação entre declarações antigas e recentes ou entre decisões adotadas em momentos diferentes.

Veja a seguir o que cada um disse e como suas posições mudaram:

Flávio Bolsonaro: Bolsa Família

O senador Flávio Bolsonaro criticava o Bolsa Família em publicações apagadas do X (antigo Twitter) feitas entre 2011 e 2013. Nos posts, associava o programa a práticas de clientelismo eleitoral, à dependência dos beneficiários e a estratégias de manutenção do apoio ao PT.

Em agosto de 2011, ao comentar um reajuste do Bolsa Família, escreveu: “Financiamento púb de campanha do pt!”. Em junho de 2013, afirmou que “o PT perpetua a pobreza com o ‘bolsa-farelo'”.

Em outra publicação, de 2014, ironizou os beneficiários do programa ao escrever:

“#ComissãoDaVerdadeDescobre que dinheiro cai do céu e ninguém precisa trabalhar dobrado para manter quem vive de bolsa família”.

Na campanha presidencial de 2026, Flávio passou a defender a manutenção do Bolsa Família e afirmou que, se eleito, manterá o benefício pago a famílias de baixa renda.

Em discurso durante o Fórum Rumos do Brasil, promovido pela revista Veja em junho, em São Paulo, Flávio classificou o Bolsa Família como um direito adquirido e defendeu a manutenção do benefício.

“Esse programa virou um direito adquirido do povo brasileiro. Ninguém tem o direito de tocar ou de acabar com esse programa. Qualquer país do mundo tem um programa para pessoas de baixa renda que têm dificuldade alimentar”, afirmou o senador, em 15 de junho de 2026, durante o Fórum Rumos do Brasil, promovido pela revista Veja, em São Paulo.

O assunto voltou ao centro da campanha depois que a equipe econômica de Flávio apresentou uma proposta para ampliar a regra de transição do programa, permitindo que beneficiários continuem recebendo parte do auxílio depois de conseguir emprego formal ou abrir um negócio.

Em vídeo publicado nas redes sociais na segunda-feira (19), Flávio negou que pretenda acabar ou reduzir o Bolsa Família e afirmou que o benefício está garantido.

“É óbvio que isso não vai acontecer. É óbvio que isso é mentira. Você que recebe o Bolsa Família fica tranquilo, o seu benefício está garantido, porque eu vou cuidar de você”, afirmou.

O senador explicou que pretende permitir que beneficiários continuem recebendo o auxílio por até dois anos após conseguirem um emprego formal ou abrirem uma empresa.

Lula: Maioridade penal

O presidente Lula (PT) mudou uma posição histórica sobre a redução da maioridade penal, passando a defender a responsabilização criminal a partir dos 16 anos em casos de crimes hediondos.

Durante anos, o petista se manifestou contra propostas para reduzir a idade de responsabilização penal no Brasil, atualmente fixada em 18 anos.

Em fevereiro de 2007, depois do assassinato do menino João Hélio, no Rio de Janeiro, Lula se posicionou contra a medida e afirmou que diminuir a maioridade penal não resolveria o problema da violência.

“Isso não resolve o problema”, declarou, durante evento em Salvador.

Oito anos depois, em maio de 2015, durante ato da Central Única dos Trabalhadores (CUT), em São Paulo, voltou a criticar propostas de redução.

“Parte da elite conservadora acha que vai resolver o problema colocando moleque de 15 anos na cadeia”, afirmou.

A posição mudou durante a campanha presidencial de 2026.

Em 15 de outubro, durante sabatina no Jornal Nacional, da TV Globo, Lula passou a defender a redução da maioridade penal para 16 anos em casos de crimes hediondos.

“Todo e qualquer crime hediondo, eu sou favorável a diminuir a maioridade”, declarou.

Quatro dias depois, em 19 de outubro, Lula reconheceu que mudou de opinião durante entrevista ao SBT.

“Temos que ter a capacidade de mudar de opinião quando nós somos convencidos de que é importante”, afirmou.

A defesa de Lula pela redução da maioridade penal, no entanto, se limita aos casos de crimes hediondos, sem incluir os demais delitos cometidos por adolescentes.

Flávio Bolsonaro: Fim da escala 6×1

Flávio Bolsonaro mudou sua posição sobre o fim da escala de trabalho 6×1, na qual o trabalhador tem seis dias de expediente para um de descanso.

Durante a campanha presidencial, o senador defendeu uma proposta alternativa à redução da jornada sem diminuição de salário. O modelo defendido por ele previa maior flexibilidade nos contratos, inclusive com a possibilidade de pagamento por hora trabalhada.

Em entrevista ao Domingo Espetacular, da Record, em 30 de agosto de 2026, afirmou:

“A gente vai defender a liberdade de você, trabalhador, escolher qual é a sua escala de trabalho”.

Na ocasião, evitou dizer se votaria favoravelmente ao projeto defendido pelo governo Lula.

Em setembro, voltou a defender a votação de sua proposta alternativa antes de uma decisão sobre o fim da escala 6×1.

A posição mudou na reta final da campanha. Em outubro, Flávio decidiu votar favoravelmente à proposta que acabava com a jornada de seis dias de trabalho para um de descanso.

Durante o debate presidencial da Band, realizado em 18 de outubro, o candidato reconheceu que havia mudado de opinião.

“Eu sou uma pessoa que sei ouvir, eu sei escutar, eu sou uma pessoa que, se for convencida, posso melhorar a minha opinião, se isso for melhor também para os cidadãos brasileiros”, afirmou.

Flávio também disse que decidiu apoiar a proposta depois de ouvir trabalhadores durante a campanha.

“Eu rodei esse Brasil inteiro, eu ouvi você, trabalhador, eu ouvi de você que queria ter esse direito a mais um dia de folga, por isso eu votei a favor”, declarou.

Lula: Taxa das blusinhas

O governo Lula mudou sua posição sobre a cobrança de impostos federais em compras internacionais de até US$ 50, conhecida como “taxa das blusinhas”.

Em 2023, o governo defendia a tributação de produtos importados como forma de proteger o comércio e a indústria nacional da concorrência considerada desleal.

Em entrevista ao Brasil 247, em 21 de março daquele ano, Lula criticou o crescimento da importação de produtos que não pagavam impostos no Brasil.

“Assim não dá para viver”, afirmou o presidente, ao argumentar que a ausência de tributação sobre mercadorias estrangeiras prejudicava a economia brasileira.

Em 2024, o governo sancionou a legislação que instituiu a cobrança federal de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50.

O posicionamento mudou em 2026, quando Lula passou a defender o fim da cobrança. Em 14 de abril, durante entrevista aos sites Brasil 247, Revista Fórum e Diário do Centro do Mundo (DCM), o presidente afirmou que considerava a medida desnecessária.

“Eu achava desnecessária a taxa das blusinhas. São compras muito pequenas, as pessoas de baixo poder aquisitivo é que compravam aquilo. Sei do prejuízo que isso trouxe para nós”, declarou.

Em 12 de maio, Lula editou uma medida provisória para zerar o imposto federal nessa faixa de valor.

Durante entrevista ao Domingo Espetacular, da Record, exibida em 23 de agosto, Lula voltou a defender o fim da cobrança e afirmou que a medida seria “para o bem das pessoas que gostam de comprar coisinha pouca por US$ 50”.

Três dias depois, durante negociação com os presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), Lula voltou a justificar a revogação do imposto.

“Porque é uma questão de justiça”, afirmou, em 26 de agosto.

Em 10 de setembro, o presidente sancionou a lei que extinguiu definitivamente a cobrança federal sobre compras internacionais de até US$ 50.

A mudança também ocorreu em meio ao desgaste político provocado pelo imposto. Pesquisa AtlasIntel divulgada em março de 2026 mostrou que 62% dos entrevistados consideravam a criação da taxa o maior erro do governo Lula.

O argumento de Lula para justificar o fim da cobrança passou a enfatizar os consumidores de menor renda, em contraste com a posição anteriormente defendida pelo governo, que associava a tributação à proteção da indústria nacional.

A mudança, entretanto, envolve tanto o discurso presidencial quanto uma decisão do governo. A declaração de Lula em 2023 tratava da tributação de importados em geral, enquanto a medida revogada em 2026 dizia respeito especificamente às compras internacionais de até US$ 50.

G1

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