
A nova pesquisa AtlasIntel/Bloomberg, divulgada nesta quarta-feira, 23 de setembro, traz um movimento aparentemente contraditório na reta final da campanha. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) melhora eleitoralmente ao mesmo tempo em que cresce a percepção de que a crise no Supremo Tribunal Federal prejudica sua candidatura.
Lula chegou a 45,8% no primeiro turno, ante 44,1% na rodada de 17 de setembro. Flávio Bolsonaro (PL) também cresceu, de 41,7% para 43,4%. Como os dois avançaram na mesma proporção, a diferença permaneceu em 2,4 pontos percentuais.
A mudança mais visível aparece no confronto direto. Lula registra 47,7%, contra 47,4% de Flávio, revertendo numericamente a ordem da rodada passada, embora a diferença continue dentro da margem de erro.
Mais do que uma mudança na corrida, a pesquisa sugere que o presidente conseguiu interromper, ao menos nesta rodada, o movimento de aproximação que vinha beneficiando Flávio nas semanas anteriores.
Há três fatores que ajudam a contextualizar essa oscilação: renda, programas sociais e a persistência da crise institucional.
Bolsa Família entra no intervalo entre as duas pesquisas
O período de coleta da nova AtlasIntel começou no mesmo dia em que o governo anunciou o reajuste de 15% do Bolsa Família. O valor mínimo do benefício passará de R$ 600 para R$ 691, enquanto o pagamento médio chegará a R$ 777. Segundo o governo, a atualização repõe a inflação acumulada desde março de 2023.
A medida foi anunciada a poucas semanas da eleição e rapidamente entrou no debate político. Adversários do presidente questionaram o timing da decisão, enquanto o governo sustenta que se trata de uma atualização prevista na legislação e acomodada no Orçamento.
A pesquisa não permite afirmar que o reajuste tenha provocado o avanço de Lula. Mas há uma coincidência temporal relevante, já que o presidente melhora na primeira rodada do Instituto coletada depois do anúncio.
Percepção sobre o bolso
Outro dado ajuda a entender o ambiente em que a campanha entra nas últimas semanas. Na rodada de 17 de setembro, 40% dos entrevistados afirmavam que havia faltado dinheiro no fim do mês. Agora, são 34%.
Ao mesmo tempo, a parcela que disse ter conseguido guardar dinheiro cresceu de 31,5% para 36%. Pela primeira vez nessa comparação, o grupo que afirma ter poupado supera o dos que dizem ter terminado o mês no vermelho.
Essa mudança não significa necessariamente que houve uma melhora equivalente na renda objetiva das famílias. A pergunta mede percepção, e diferentes fatores podem influenciar a resposta.
Ainda assim, o dado importa eleitoralmente porque a avaliação da própria situação econômica costuma ser um dos elementos considerados pelos eleitores ao julgar governos em exercício.
O preço dos alimentos permanece como o principal problema. Para 44,2% dos entrevistados, é esse o item que mais prejudica a situação financeira familiar.
Já dívidas e juros perderam espaço, e foram citados por 33,5% na rodada de 17 de setembro e agora aparecem com 25%.
Uma hipótese para parte desse movimento é o efeito das políticas recentes de renegociação. O Novo Desenrola Brasil ofereceu descontos de até 90% para dívidas elegíveis, juros limitados a 1,99% ao mês e parcelamento em até quatro anos. Até o fim de agosto, cerca de 5 milhões de dívidas haviam sido renegociadas, segundo dados divulgados pelo governo.
Não é possível, porém, estabelecer uma relação causal entre o programa e a mudança captada pela AtlasIntel, mas novas rodadas da pesquisa podem mostrar que a oscilação se configura como uma tendência ou não.
Melhora sem resolver problema de avaliação
A desaprovação presidencial também oscilou na direção favorável a Lula, mas de maneira limitada. O percentual caiu de 54% para 53%, enquanto a aprovação permaneceu em 45%.
Isso significa que Lula melhora na intenção de voto sem uma mudança equivalente na percepção sobre seu governo. A maioria dos entrevistados continua desaprovando o desempenho presidencial.
O movimento ajuda a mostrar o grau de polarização da eleição. A intenção de voto em Lula se aproxima do percentual de aprovação, enquanto Flávio continua concentrando a maior parte do eleitorado contrário ao presidente. Os dois já somam 89,2% das intenções no primeiro turno.
STF é ponto fora da curva
Se a economia doméstica mostra sinais mais favoráveis ao presidente, a crise no STF vai na direção oposta. Para 52,3% dos entrevistados, a turbulência envolvendo ministros do Supremo prejudica mais a candidatura de Lula.
Na pesquisa de 17 de setembro, eram 49,5%. Ou seja, a percepção de desgaste aumentou justamente em uma rodada na qual Lula avançou eleitoralmente.
O levantamento sugere que, neste momento, os efeitos negativos associados à crise institucional não foram suficientes para impedir uma melhora do presidente em outros indicadores.
Isso não significa que o tema tenha perdido relevância. Pelo contrário: mais da metade dos entrevistados agora associa o maior custo eleitoral do episódio a Lula.
No entanto, os dados demonstram que forças distintas atuam simultaneamente sobre a eleição. De um lado, programas de renda, renegociação de dívidas e uma percepção menos negativa sobre o orçamento familiar podem criar um ambiente mais favorável ao governo. Do outro, o STF permanece como fonte de desgaste percebido.
A pesquisa ouviu 5.015 pessoas entre 17 e 22 de setembro, por recrutamento digital aleatório. A margem de erro é de um ponto percentual, para mais ou para menos, e o nível de confiança é de 95%. O levantamento está registrado no TSE sob o número BR-04739/2026.
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