
O Copom (Comitê de Política Monetária) do BC (Banco Central) realiza, a partir desta terça-feira, 29 de julho, sua quinta reunião deste ano. Mas, apesar de haver uma quase certeza quanto à decisão a se tomar, o mercado diverge quanto ao que o tarifaço de Donald Trump contra o Brasil possa significar. Especialmente no longo prazo, para o trabalho da autoridade monetária.
É consenso no mercado de que será de manutenção a decisão sobre a Selic, que mede os juros básicos do país, a se divulgar na quarta-feira, 30 de julho. Em seu último encontro, no mês de junho, o colegiado formado pelos diretores da autarquia elevou a Selic a 15% ao ano.
Qualquer decisão que não seja manter os juros onde estão “seria uma surpresa” para os analistas do JP Morgan. Eles ressaltam que a expectativa é do BC cumprir com a sinalização de interrupção do ciclo aperto monetário nesta reunião.
“Com pouquíssimas aparições públicas recentemente, parece que os membros do conselho do BCB estão confortáveis com a mensagem de ‘alto por longo prazo’. Esta mensagem tem prevalecido nas comunicações recentes”, escreveu o banco em relatório.
Em sua última decisão, o Copom ressaltou que deve manter “uma política monetária em patamar significativamente contracionista por período bastante prolongado”. O objetivo é levar a inflação à meta de 3%.
Expectativas do mercado
Se as expectativas do mercado vingarem, a autoridade monetária só deve voltar a derrubar os juros em 18 de março de 2026, na segunda reunião do próximo ano. Esta decisão colocaria a Selic em 14,5%, como consta na última apuração do Boletim Focus, atualizado na segunda-feira, 28 de julho.
Favoravelmente ao BC, “os dados desde a última reunião do Copom foram majoritariamente benignos para as perspectivas de inflação”, conforme relatório da XP.
Leituras do IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), que mede a alta dos preços no país, em linha ou abaixo das expectativas; deflação no atacado. Estes dados sinalizam uma transmissão da melhora no longo prazo para o cidadão comum. Sinais de desaceleração da atividade doméstica, apesar de ainda sólida, também são relevantes. Estes são alguns dos pontos elencados pelos economistas da casa de investimentos.
Resumindo, a XP avalia que “os dados e notícias desde a última reunião devem convencer o Copom de que a política monetária está suficientemente contracionista com a taxa Selic no patamar atual”. Porém, a empresa ressalta que “o impacto das tarifas dos EUA também deve ser monitorado pelo Comitê”.
“O impacto direto tende a ser desinflacionário (menor demanda global e maior oferta doméstica). No entanto, i) o real pode se desvalorizar caso a crise se agrave. E ii) uma eventual — embora improvável — retaliação do governo brasileiro com alta nas tarifas de importações dos EUA seria inflacionária”, pontua o relatório.
Tarifaço e futuro da política monetária
A CNN apurou que quadros do Banco Central apontam para um efeito limitado das tarifas de Donald Trump na economia brasileira. A alíquota que deve vigorar a partir do dia 1º de agosto é de 50%.
“A efetivação das tarifas recentemente anunciadas pelo governo americano reduz o espaço para uma apreciação da moeda, apesar do ambiente global de dólar fraco. Por outro lado, essas tarifas aumentam a probabilidade de um enfraquecimento mais acelerado da economia. Em termos líquidos, os riscos parecem pesar mais na direção de cortes de juros antecipados”, indica relatório do Itaú.
Servidores da autoridade monetária admitem que o prejuízo aos exportadores deve conter o crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) em alguns décimos. Apesar do choque relevante, não levaria a distorções estruturais. O temor é caso a situação escale.
“Caso o Brasil decida retaliar e aplicar tarifas mais elevadas a produtos e serviços americanos, isto sim seria um movimento potencialmente inflacionário. Essa ação poderia forçar o Copom a adotar uma postura mais hawkish [dura, no jargão da política monetária]. O início do corte da Selic poderia ser afastado ainda mais”, avalia Paula Zogbi, estrategista-chefe da Nomad.
“Como essa retaliação ainda não é o cenário mais esperado pelos agentes econômicos, por ora, nossa visão é que os efeitos tendem a ser limitados para a reunião desta semana. No máximo, pode haver alguma menção a estes riscos no comunicado”, acrescenta.
Incertezas
Leonardo Costa, economista do ASA, considera o tarifaço “a maior incerteza do momento”. Ele defende que “o comunicado [do Copom] deve reforçar a necessidade de manter juros altos por um período prolongado, citar atividade resiliente, mas em moderação, e manter o discurso de vigilância, sem abrir espaço para cortes”.
A cena exterior já vinha sendo incluída no radar de incertezas do BC há algum tempo. Apesar do recente afrouxamento dos juros fora do país, “um cenário externo incerto tem um impacto particularmente significativo no Brasil. Este impacto ocorre devido ao potencial de tarifas mais altas sobre suas exportações para os EUA”, coloca o Santander em relatório.
Para os analistas do Banco Daycoval, a avaliação do Copom sobre a realidade econômica internacional vai ser o principal ponto a se observar nesta quarta. Isso é especialmente importante no que tange a guerra comercial sobre o Brasil.
O JP Morgan aponta que a comunicação do BC deve vir na linha de “destacar a incerteza sobre os eventuais efeitos secundários desse potencial choque. Isto é necessário ao invés de tirar conclusões neste momento”.
Natalie Victal, economista-chefe da SulAmérica Investimentos, ressalta que será necessário cuidado na escrita. A razão é que o Copom corre o risco de soar mais suave quanto à política monetária do que o requerido pelo mercado.
“Caso o Banco Central reconheça de forma mais explícita a desaceleração da atividade, mencione sinais de melhora da inflação corrente e/ou destaque o risco baixista para a inflação decorrente da guerra comercial — via impacto na atividade econômica —, o mercado pode interpretar a comunicação como mais suave do que o pretendido.”
Mais impacto lá do que aqui
O Copom não toma sua decisão sozinho nesta quarta. Acompanhando a autoridade monetária brasileira, o banco central norte-americano, o Federal Reserve.
Assim como o BC, o Fed deve manter seus juros e “caprichar na comunicação”. Esta declaração é feita pelo professor José Francisco de Lima Gonçalves, da FEA-USP (Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da Universidade de São Paulo). Ele reconhece a incerteza sobre os efeitos das novas tarifas sobre inflação e atividade.
Para os Estados Unidos, porém, a situação é mais delicada. “Em suma, nos EUA, a inflação tem viés de piora, ainda que modesta. A atividade dá sinais de recuperação depois da instabilidade dos primeiros meses do ano. Mas, assim como a confiança do consumidor, nada convincente”, pontua Gonçalves.