
Diz o ditado que nem tudo que reluz é ouro. Mas, no ano passado, ninguém brilhou como ele. O metal foi, entre bolsas, dólar e títulos públicos e de crédito, um dos ativos com maior valorização anual, de 63%, com base em dados do Banco Mundial. Ele superou as expectativas mais otimistas. E saiu de em torno de US$ 2.600 pela onça-troy em janeiro para atingir a máxima durante um pregão de US$ 4.500 em fins de dezembro.É consenso entre as previsões que o ouro continuará a se valorizar em 2026.Bancos como J.P. Morgan, Goldman Sachs e Morgan Stanley projetam o preço do metal entre US$ 4.600 e US$ 5.000.Ontem, o preço dos contratos mais líquidos do mercado, os da divisão de metais da Nymex (New York Mercantile Exchange) com vencimento em fevereiro, chegou a US$ 4.616.
Conforme o anuário do Conselho Mundial do Ouro, que reúne empresas produtoras do metal, a valorização foi fruto de uma combinação de aumento na incerteza geopolítica e econômica, enfraquecimento do dólar e um “momentum” positivo de preços.
Só a demanda de autoridades monetárias foi superior a mil toneladas por três anos consecutivos desde 2022. Os dados de 2025, ainda incompletos, estimam entre 750 e 900 toneladas. Antes da pandemia, a média anual foi de 497 toneladas.
Ainda mais, outro vetor dos preços foi a popularização dos fundos de índice (ETF) que seguem a cotação do metal. A entrada líquida de valores nestes fundos representou a compra de 801,2 toneladas de ouro, equivalente a US$ 88,5 bilhões, segundo o WGC. Além disso,a região onde os investidores mais procuraram o metal foi a América do Norte, responsável por 445,6 toneladas. Em seguida, veio a Ásia, com 215,4 toneladas e a Europa, com 131,4 toneladas.
Crise de confiança no dólar traça paralelos entre 1979 e 2025
A última vez que o ouro atingiu um patamar tão elevado de valorização foi em 1979, quando os preços mais que dobraram na esteira do episódio conhecido como o segundo choque do petróleo. Dessa forma, à época, uma série de conflitos geopolíticos fez disparar o preço dos barris. Assim sendo, provocou onda inflacionária no dólar americano. A reação das praças financeiras foi buscar outra reserva como forma de proteção de patrimônio.
“O ouro é um refúgio para momentos de incerteza dos agentes econômicos. Ele não está atrelado a nenhum país. As moedas são fiduciárias, baseadas na confiança nas economias e bancos centrais, na forma como eles conduzem sua política monetária. O ouro não tem um banco central, [seu preço] depende apenas da quantidade de metal no mercado”, explica Emerson Braz, economista e pesquisador pela PUC-SP.
Conforme ele, há claras diferenças entre 1979 e 2025. Mas o traço comum é a percepção de que há uma crise de confiança no dólar, em especial no seu papel de moeda de referência no comércio global.
Segundo dados divulgados esta semana pelo WGC, é possível que os bancos centrais, fora o dos Estados Unidos, tenham hoje mais ouro em suas reservas somadas do que títulos do Tesouro americano. As reservas globais de metal já superaram US$ 4 trilhões. Vale notar que as reservas de títulos do Tesouro americano em posse de nações estrangeiras totalizavam aproximadamente US$ 3,9 trilhões nos dados mais recentes, do próprio Tesouro, relativos a outubro de 2025. A última vez que as reservas de ouro dos bancos centrais superaram as reservas do Tesouro da maior economia do mundo foi em 1996.
O que esperar para 2026?
As principais casas de análise podem até discordar do quanto. No entanto, é consenso entre as previsões que o ouro continuará a se valorizar em 2026. E antes da primeira semana de janeiro, as expectativas já exigem ajuste para cima. Isso ocorre conforme o metal ultrapassa os valores estimados para o primeiro trimestre – na onda do acirramento ainda maior das tensões geopolíticas. O J.P.Morgan previu que ele atingiria US$ 4.655 no segundo trimestre deste ano.
“Embora essa alta do ouro não tenha sido, e não será, linear, acreditamos que as tendências que impulsionam essa recuperação dos preços do ouro não se esgotaram”, disse Natasha Kaneva, chefe de estratégia global de commodities do JP Morgan, em relatório publicado em dezembro. “A tendência de longo prazo de diversificação das reservas oficiais e dos investidores em ouro ainda tem fôlego. Esperamos que a demanda por ouro impulsione os preços para perto de US$ 5.000 por onça-troy até o final de 2026.”
O relatório de fim de ano do Goldman Sachs sobre metais e commodities previu que o preço chegará a US$ 4.900 até dezembro deste ano. A casa espera uma demanda “estruturalmente alta” dos bancos centrais. Também acredita que um suporte cíclico do corte de juros pelo Fed estimule, juntos, o preço do ouro. Por isso, a recomendação aos investidores é que mantenham posições de exposição longa ao metal.
Crescimento
O Morgan Stanley, por sua vez, prevê que o preço chegue a US$ 4.800 no quarto trimestre deste ano, em documento divulgado este mês. Nele, já estava incluída uma avaliação dos impactos dos eventos na Venezuela na cotação dos lingotes de ouro, ao afirmar que eles “provavelmente atrairiam compradores para o ouro como um refúgio”. Além dos motivos já citados, o banco incluiu que a mudança de liderança do Fed – com saída de Jerome Powell e entrada de alguém alinhado a Donald Trump – como um vetor favorável a alta do metal.
Em contrapartida, o WGC sinaliza que há um cenário no qual o ouro poderia se desvalorizar em relação ao preço atual. Ao delinear que um aumento das tensões geopolíticas e o enfraquecimento do dólar podem oferecer uma valorização de até 30% em 2026, o relatório do conselho afirma que, “por outro lado, também existe a possibilidade de as políticas implementadas pelo governo Trump serem bem-sucedidas, resultando em um crescimento mais forte do que o esperado, impulsionado por estímulos fiscais”. Com isso, o Fed seria forçado a manter ou mesmo aumentar taxas de juros este ano. Portanto, elevaria os rendimentos de longo prazo e fortaleceria o dólar americano.
“Desfeitas as operações de “hedge” (proteção) e com a demanda do varejo em desaceleração, o cenário torna-se decididamente negativo, resultando em uma correção do preço do ouro entre 5% e 20% em relação aos níveis atuais”, diz o WGC. Esse movimento de redução do prêmio do metal levaria, hipoteticamente, os investidores a abandonarem posições em ETFs de ouro. Assim, pressionaria ainda mais preços.