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📅 Última atualização: sex., 07.11.25 – 21h10
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A atividade física não é apenas um “hábito saudável”, mas uma intervenção que altera a química e a estrutura do cérebro. — Foto: Unimed Prudente

Praticar exercício físico pode ser tão eficaz quanto remédios e psicoterapia no tratamento da depressão e da ansiedade, segundo uma das maiores análises já realizadas sobre o tema. O estudo, que reuniu dados de quase 80 mil pessoas, aponta que a atividade física reduz sintomas em todas as faixas etárias e, em alguns casos, apresenta resultados superiores aos tratamentos tradicionais.

A pesquisa é uma “revisão de revisões” (meta-meta-análise), publicada por cientistas da Austrália. Os autores reuniram e avaliaram metanálises e revisões sistemáticas já existentes para medir, com mais precisão, o impacto do exercício na saúde mental.

Ao todo, incluiram 63 estudos, que continham 81 metanálises, abrangendo 1.079 estudos individuais e 79.551 participantes. A busca se fez em sete grandes bases de dados científicas, como SCOPUS, PsycINFO e PubMed. Para garantir que o efeito observado viesse apenas do exercício, os pesquisadores excluíram pessoas com doenças físicas crônicas pré-existentes, como câncer e doenças cardíacas.

Por que exercício físico funciona?

O exercício funciona como tratamento eficaz para a saúde mental porque atua simultaneamente em frentes biológicas, psicológicas e sociais. De acordo com as análises, a atividade física não é apenas um “hábito saudável”, mas uma intervenção que altera a química e a estrutura do cérebro, além de fortalecer o bem-estar emocional por meio da interação com outras pessoas.

“A depressão tende a comprometer o planejamento, a iniciativa e a organização. Quando o exercício tem horário fixo, estrutura e repetição, ele funciona quase como um guia. A pessoa não precisa decidir o tempo todo. A estrutura já está dada. Isso também ajuda a regular o ciclo sono-vigília e, com a repetição, pode favorecer neuroplasticidade pré-frontal. Cada sessão cumprida reforça uma ideia simples, mas poderosa: ‘eu consigo’. Isso reorganiza comportamento e autoestima ao mesmo tempo”, afirma Helder Picarelli, médico neurocirurgião e neurologista do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (ICESP)

Do ponto de vista neurobiológico, medicamentos e exercício atuam sobre vias semelhantes, mas por caminhos diferentes. O humor, a motivação e o prazer são mediados por vias finais comuns — neurotransmissores, atividade elétrica e regulação hormonal. O que ocorre nas diferentes intervenções é que essas vias se estimulam por mecanismos distintos para chegar ao mesmo resultado. Medicamentos estimulam essas vias por um caminho químico específico. O exercício ativa essas mesmas redes por vias fisiológicas mais amplas, metabólicas, inflamatórias, hormonais e comportamentais.

Qual exercício funciona melhor em cada caso?

🏃🏻‍♀️Os pesquisadores identificaram que não existe fórmula única: o tipo e a intensidade do exercício impactam as condições de forma diferente.

• Para casos de depressão: Os melhores resultados foram observados em exercícios aeróbicos (como corrida ou caminhada), realizados em grupo e com supervisão profissional. O componente social e o senso de pertencimento se apontaram como cruciais para potencializar o efeito antidepressivo.

 Para casos de ansiedade: Programas de curta duração (até oito semanas) e de baixa intensidade mostraram-se mais eficazes para reduzir os sintomas de forma mais rápida.

“O estudo não prova o porquê dos exercícios aeróbicos terem maior impacto na depressão; ele aponta uma associação, não uma causalidade. Mas há hipóteses plausíveis: efeito mais consistente no sono, na energia e no humor, facilidade de adesão a atividades como caminhada, corrida ou ciclismo e sensação mais rápida de melhora, o que reforça a continuidade do tratamento”, conta Diego Munhoz, médico ortopedista formado pela USP.

Quem mais se beneficia?

Embora o exercício ajude em todas as faixas etárias, dois grupos apresentaram melhoras mais expressivas:

Exercícios físicos e o vínculo social

A eficácia do exercício não é apenas psicológica. Biologicamente, ele estimula a produção de neurotrofinas (proteínas que ajudam no crescimento e na sobrevivência dos neurônios) e protege o cérebro contra danos neurotóxicos. No campo social, o exercício em grupo aumenta a motivação e a sensação de apoio, o que ajuda o paciente a manter o tratamento por mais tempo.

De acordo com Helder Picarelli, quando a pessoa está isolada, sistemas cerebrais ligados à dor emocional ficam mais reativos. O exercício em grupo acrescenta pertencimento, ativa circuitos de recompensa e reduz a resposta ao estresse. Isso diminui a ruminação e a autocrítica. “Não é só o músculo que está sendo treinado é o cérebro social”, diz.

Se é tão eficaz, por que ainda não é primeira opção?

Os autores defendem que o próximo passo é transformar as evidências em recomendações práticas, para que médicos possam prescrever exercício com a mesma segurança com que indicam medicamentos ou psicoterapia, ampliando o arsenal terapêutico no enfrentamento da depressão e da ansiedade.

“Não é uma competição. Muitas vezes, a melhor estratégia é combinar”.

— Helder Picarelli.

Apesar das evidências esmagadoras, o estudo aponta que a recomendação de exercícios nos consultórios ainda é limitada. Os pesquisadores alegam que profissionais de saúde devem prescrever atividades físicas com a mesma confiança que prescrevem fármacos, criando guias práticos e personalizados para cada perfil de paciente.

“Exercício é ferramenta terapêutica poderosa, mas não pode virar algo rígido ou culpabilizante. Precisa ser adaptado à realidade de cada pessoa e, quando bem orientado, passa a integrar o cuidado”, pontua o médico.

G1

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