
Canetas emagrecedoras ou antiobesidade populares, como Ozempic e Mounjaro, têm mostrado resultados expressivos no emagrecimento inicial. No entanto, um novo estudo publicado pelo BMJ (British Medical Journal), um prestigiado periódico científico, levanta um alerta importante. O estudo mostra que ao interromper o uso dessas drogas, a maioria das pessoas tende a recuperar o peso perdido em um intervalo relativamente curto.
Detalhes da pesquisa
De acordo com a pesquisa, a recuperação média é de 0,4 kg por mês após o fim do tratamento. Se esse ritmo se mantiver, o peso corporal e os principais marcadores de risco para diabetes e doenças cardiovasculares podem retornar aos níveis anteriores ao uso dos medicamentos. Isso pode ocorrer em menos de dois anos.
Além disso, o estudo analisou o impacto da interrupção de medicamentos para controle do peso. Esses medicamentos se utilizam no tratamento da obesidade. “Essas evidências sugerem que, apesar do sucesso na obtenção de uma perda de peso inicial, esses medicamentos, por si só, podem não ser suficientes para o controle do peso a longo prazo”, conforme os pesquisadores no comunicado divulgado pelo BMJ Group.
Assim sendo, a recuperação do peso é mais rápida do que com dieta e exercícios. Dessa forma, um dos pontos centrais do estudo é a comparação entre o restabelecimento de peso após o uso de medicamentos e aquele observado em pessoas que emagreceram por meio de mudanças no estilo de vida, como dieta e atividade física. Conforme os dados, a recuperação de peso após a interrupção dos medicamentos ocorre de forma quase quatro vezes mais rápida do que após programas comportamentais de emagrecimento. Isso ocorre independentemente da quantidade de peso perdida durante o tratamento.
Sumiço dos benefícios
Benefícios à saúde também tendem a desaparecer. Além do peso corporal, os pesquisadores observaram que os benefícios metabólicos bem como os cardiovasculares conquistados durante o tratamento também tendem a se reverter com o tempo.
O estudo aponta que “os marcadores de risco para diabetes e doenças cardíacas foram projetados para retornar aos níveis pré-tratamento em menos de dois anos”. Já os indicadores cardiometabólicos, como colesterol e pressão arterial, podem voltar aos valores basais em cerca de 1,4 ano após a interrupção da medicação. Isso acontece segundo projeções apresentadas pelos pesquisadores no comunicado.
Além disso, outro dado que chama atenção é a taxa de descontinuação do tratamento. Estima-se então que cerca de metade das pessoas com obesidade interrompa o uso de medicamentos à base de GLP-1 em até 12 meses.
Diante desse cenário, os autores destacam a importância de compreender os efeitos da suspensão do tratamento. “Essas evidências alertam contra o uso de curto prazo de medicamentos para controle do peso, reforçam a necessidade de mais pesquisas sobre estratégias custo-efetivas para o controle do peso a longo prazo e reiteram a importância da prevenção primária”, conclui o estudo.
Medicamentos não substituem mudanças de estilo de vida. Em editorial relacionado ao estudo, a pesquisadora Qi Sun reforça que os medicamentos não devem ser vistos como solução definitiva para a obesidade. “Os achados do estudo colocam em dúvida a ideia de que os agonistas do receptor GLP-1 sejam uma cura perfeita para a obesidade”, declara a cientista, da Escola Médica de Harvard.
“Práticas alimentares saudáveis e mudanças no estilo de vida devem continuar sendo a base do tratamento e do manejo da obesidade, com os medicamentos utilizados como complemento. Essas práticas não apenas ajudam a prevenir o ganho excessivo de peso, como podem gerar inúmeros benefícios à saúde que vão além do controle do peso.” – Qi Sun, professora de medicina, em nota
Como o estudo foi feito
Análise reuniu 37 estudos, publicados até fevereiro de 2025, com 9.341 participantes. Em média, o tratamento para perda de peso durou 39 semanas, com acompanhamento posterior de 32 semanas.
Os autores reconhecem limitações, como o número reduzido de estudos com os medicamentos mais recentes e o curto período de acompanhamento após a interrupção. Ainda assim, ressaltam que utilizaram três métodos de análise diferentes, todos com resultados semelhantes, o que aumenta a confiabilidade das conclusões.