
Participar de provas de resistência extrema, como ultramaratonas, pode provocar danos estruturais e moleculares nos glóbulos vermelhos — células responsáveis por transportar oxigênio e remover resíduos do organismo. É o que indica um estudo publicado na revista científica “Blood Red Cells & Iron”, da Sociedade Americana de Hematologia.
🩸 A cada minuto, cada um dos seus glóbulos vermelhos completa sua jornada por todo o sistema circulatório, levando oxigênio a todas as células — da ponta da cabeça aos dedos dos pés. Além disso, a cada segundo, seu corpo produz 2 milhões de novos glóbulos vermelhos. Em esportes de resistência, essa função é ainda mais crucial.
Mas o que a pesquisa descobriu é que corridas muito longas reduzem a flexibilidade dessas células. Isso pode comprometer a capacidade de circular por vasos sanguíneos estreitos. Além disso, pode prejudicar o desempenho de suas funções corretamente.
Embora ainda não esteja claro por quanto tempo os efeitos persistem ou quais são as consequências a longo prazo, os autores afirmam que o trabalho reforça evidências de que exercícios em níveis extremos podem ter impactos negativos sobre a saúde.
- 🔴 ATENÇÃO: a pesquisa não está desestimulando a prática de atividade física. O estudo foca em provas de resistência extrema, que envolvem corridas de 40 a 100 quilômetros. Corridas de rua ou na esteira, em distâncias menores, não entram na análise.
Como o estudo foi feito?
A equipe analisou 23 corredores que participaram de duas provas de nível mundial: a Martigny-Combes à Chamonix, em que correram 40 quilômetros, e a Ultra Trail de Mont Blanc, em que correram 171 quilômetros.
🔎 Os cientistas coletaram amostras de sangue antes e depois das corridas. Com elas, examinaram milhares de proteínas, lipídios, metabólitos e oligoelementos presentes no plasma e nos glóbulos vermelhos.
Os resultados mostraram que as células apresentaram evidências de danos tanto mecânicos quanto moleculares.
- Para você entender melhor: os danos mecânicos estão relacionados ao estresse físico provocado pela circulação intensa do sangue durante a corrida — com variações de pressão e deformações repetidas das células ao passarem por vasos estreitos. Já os danos moleculares envolvem alterações químicas associadas à inflamação e ao estresse oxidativo, processo em que moléculas instáveis podem afetar proteínas e a membrana das células.
E olha: esses danos já apareciam na análise logo depois da prova de 40 quilômetros. Eles foram ainda mais intensos nos atletas que correram 171 quilômetros.
🩸 Segundo os autores, isso sugere que, conforme a distância da corrida aumenta, cresce também a perda de glóbulos vermelhos. Ademais, há o acúmulo de danos nas células que permanecem na circulação.
O que ainda falta saber?
➡️ Os pesquisadores ainda não sabem quanto tempo o corpo leva para reparar o dano causado. Eles também não sabem se ele permanece no longo prazo nem o quanto isso pode afetar a saúde.
“Com base nesses dados, não podemos afirmar se as pessoas devem ou não participar desse tipo de evento; o que podemos dizer é que, quando participam, o estresse persistente danifica a célula mais abundante do corpo”, diz Travis Nemkov, professor associado do Departamento de Bioquímica e Genética Molecular da Universidade do Colorado Anschutz.
Vale lembrar que também há uma limitação no que eles descobriram. Isso porque as amostras são pequenas, de apenas 23 participantes, e só em dois momentos.
A ideia dos cientistas é que, ao entender que isso acontece, seja possível desenvolver estratégias para reduzir os impactos desse tipo de exercício de resistência. Para isso, podem ser utilizados treinos personalizados, ajustes nutricionais e protocolos de recuperação, por exemplo.
De forma alguma a pesquisa desaconselha a atividade física.