
“Além de levar o dinheiro que eu tinha, ele consumiu todo o cheque especial, pegou empréstimo. Enfim, devastou a minha vida financeira. E a partir daí, eu agora começo uma luta pra tentar reaver.” Esta é uma parte do relato compartilhado por Lênin Franco, ex-diretor de marketing da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), que foi vítima do chamado golpe do falso gerente.
Em um vídeo no Instagram, Lênin, que hoje é sócio de uma agência de marketing esportivo, compartilhou o ocorrido para alertar outras pessoas e detalhar como o golpista agiu. Ele disse que passou cerca de um mês interagindo com o golpista por mensagens no WhatsApp até chegar a oportunidade ideal para que lhe fosse tomado dinheiro.
“Em fevereiro, eu recebi o primeiro contato dele, se colocando à disposição para qualquer coisa que eu precisasse, que ele era o meu gerente da conta de pessoa jurídica. E todas as características iguais a de qualquer abordagem que eu já tinha recebido do banco em outras oportunidades”, contou Lênin.
A foto do perfil do golpista era com uma parede do banco ao fundo, o DDD utilizado era o mesmo onde Lênin mantinha conta em uma agência e a forma de escrever também era muito convincente. “Ele me convidou, inclusive, para tomar um café na agência. Eu brinco, falei com o advogado esses dias que eu devia ter suspeitado porque eu nunca fui tão bem atendido pelo banco como eu estava sendo atendido por ele”, detalhou.
Nas interações iniciais, o falso gerente nunca chegou a pedir nada a Lênin, mas sempre mencionava os dados bancários dele. No dia em que precisava fazer uma transferência bancária, foi Lênin quem procurou pelo golpista.
“Contatei ele e aí ele falou ‘entra aqui nesse link mas tenta pelo computador, não tenta pelo celular, porque pelo computador eu vou te auxiliando e a gente vai falando’. Eu tentei acessar, bloqueou. Tentei três vezes minha senha, minha senha bloqueou, e ele falou: ‘Não, vamos fazer o seguinte. Eu vou fazendo aqui pelo sistema e a gente vai adiantando'”, relembra.
Com isso, o falso gerente foi pedindo números de validação que apareciam no aplicativo de Lênin, que respondia. “O final das contas foi um desastre”, resume a vítima.
No caso de Lênin, a conta usada por ele era da sua empresa, Pessoa Jurídica, no banco Bradesco. A instituição, inclusive, aparece em outros relatos nas redes sociais de golpes similares. Foi o caso da jornalista Claudia Castelo Branco, que perdeu R$ 22 mil em interações com golpista que se passava por gerente do mesmo banco. Ela destacou que o falso gerente ganhou sua confiança ao mencionar dados pessoais dela e de sua conta, como quanto havia em seu saldo bancário.
Ao Terra, o Bradesco afirmou, em nota, que não comenta casos que envolvam clientes em razão do sigilo bancário.
“De forma geral, os golpes envolvendo falso funcionário e falsa central de atendimento tem aumentado. O Banco mantém comunicação ativa com seus clientes, por meio de campanhas e alertas nos canais digitais com orientações de prevenção. O Bradesco reforça que não realiza ligações solicitando senhas, chaves de segurança, instalação de aplicativos, acesso remoto ao aparelho ou autorização de transações, e disponibiliza orientações de segurança em seus canais oficiais”, diz.
A instituição financeira também disponibilizou três links com conteúdos sobre golpes: Prevenção a fraudes e golpes; Golpe da falsa central de atendimento; e Dicas de segurança.
Como se prevenir e o que fazer se cair no golpe do falso gerente?
A Federação Brasileira de Bancos (Febraban) publicou um alerta sobre o golpe do falso gerente. A instituição recomenda que os clientes de bancos nunca compartilhem por meio de ligação ou mensagem suas senhas pessoais, códigos ou tokens fornecidos pelos aplicativos.
Apesar disso, a nota da Febraban fala que “quando um representante do banco entra em contato com o cliente, já detém todas as informações necessárias para informar o cliente ou confirmar uma transação”. Mas, o que foi visto nos casos citados acima, é de golpistas que já detinham informações sigilosas.
Tanto Lênin Franco quanto Claudia Castelo Branco relataram que tentaram reaver os valores perdidos com o próprio banco, mas sem sucesso. Agora, irão buscar o ressarcimento na Justiça.
Segundo a advogada Carolina Pollo, especialista em Direito Bancário, o que o histórico de processos no Brasil mostra é que as demandas das vítimas costumam ser acolhidas nesses casos e a instituição financeira é culpabilizada pela falha na segurança.
“O que mais define, geralmente, é a conduta do banco sobre esse golpe sofrido. Na maioria das vezes, a culpa vai ser imputada ao banco com uma responsabilidade objetiva, que é quando ele não teve culpa da vítima ter sofrido o golpe, contudo, pela falha do mecanismo, ou por não ter tido mecanismos eficientes e capazes de ter detectado de primeira esse golpe sofrido, ele vai ser responsabilizado civilmente e objetivamente”, afirma.
Por exemplo, se as transações financeiras foram atípicas para o perfil do cliente e o banco não fez nada para impedi-las, ele pode ser responsabilizado. “E aí ele vai efetuar o pagamento, ou de danos morais, ou ele vai ter que fazer a devolução dos valores que foram retidos da conta da vítima”, complementa Carolina.
Somente em alguns casos, que são poucos, a Justiça entende que o banco fez tudo o que podia, mas, ainda assim, o cliente caiu em um golpe. Caso a vítima tenha passado os dados bancários por conta própria para o golpista, por exemplo, a jurisprudência do Supremo Tribunal de Justiça (STJ) entende que não houve imprudência por parte da instituição financeira.
Com relação a casos como os citados acima, em que as vítimas já eram abordadas com seus dados pessoas expostos, a advogada explica que é preciso entender onde ocorreu esse vazamento.
“Se for comprovado que houve vazamento de dados do banco, da instituição que você possui a conta, então, com certeza, o banco vai ser responsabilizado por esse vazamento de dados. Mas, infelizmente, hoje na internet, você pode encontrar dados das pessoas sem nem precisar encontrar dentro do banco mesmo”, afirma Carolina.