
O filho do agricultor Sidrônio Moreira, ainda nutre a esperança de encontrar água no sítio onde mora com o pai, a mãe e um irmão.
Sidnei Moreira e a família enfrentam dificuldades para acessar água encanada na região e dependem de uma adutora e carros-pipa para realizar tarefas básicas, como lavar a louça.
Sidnei e o pai tiveram a ideia de perfurar dois poços artesianos em 2024. Mas, no lugar da água, encontraram um líquido preto, denso, viscoso e com cheiro de combustível.
Agora, eles aguardam uma análise definitiva da Agência Nacional do Petróleo (ANP) para identificar a substância. Enquanto isso, não podem cavar novos poços, e o problema de acessar água continua:
“No primeiro momento que a gente viu que não era água, eu fiz um mecanismo para conseguir tirar uma amostra e ver o que de fato era. Acabamos encontrando esse óleo. Um dos medos da gente era que ninguém acreditasse que era óleo para vir analisar. O IFCE (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará) pediu uma amostra do material e enviei para eles. A partir disso, surgiu todo o estudo”, relembra Sidnei ao g1.
Busca por Água
O fazendeiro não desistiu de seu objetivo: encontrar água para tranquilizar a família. Hoje, ele cuida de cerca de 20 animais e plantações de feijão e milho. Enquanto não consegue uma fonte própria, conta com água enviada pela prefeitura em carros-pipa e uma adutora que abastece a região.
Para beber, a família compra água mineral na cidade, gastando cerca de R$ 100 por mês. Sidnei fazia faculdade em Mossoró (RN), mas há dois anos retornou para o Sítio Santo Estevão a fim de ajudar o Seu Sidrônio nas tarefas diárias do sítio.
Ele conta que, no período de chuva, os problemas diminuem. Mas, quando não há precipitações, as atividades ficam bem limitadas: “Agora está tudo verde, mas no período em que não tem chuva, é tudo seco, só tem água para os animais, e a gente prioriza eles. A gente não pode ter irrigação, horta, nenhum canteiro. Mas a expectativa mesmo é encontrar água na propriedade“, pontua Sidnei.
O filho de Seu Sidrônio não faz planos caso o líquido “estranho” encontrado no terreno seja mesmo petróleo. Em relação a isso, ele prefere “manter os pés no chão”, como relatou ao g1 durante visita da equipe à Tabuleiro do Norte:
“A gente trabalha bastante com os pés no chão. A gente não sabe ainda o que é, se vai ser possível explorar esse material, a gente ainda não tem essa noção. E a gente vai continuar com a nossa vida normal no campo mesmo, porque nunca foi nossa intenção achar petróleo, sempre foi achar água”.
Caso se confirme, o agricultor poderá ‘lucrar’?
A resposta é complexa. Conforme os técnicos da ANP relataram ao g1, o agricultor não será dono do petróleo, pois a Constituição Federal determina que o subsolo e suas riquezas, incluindo o petróleo e o gás, são de propriedade e monopólio da União.
No entanto, Sidrônio poderá ter um retorno financeiro caso a área passe por um processo de exploração e produção comercial no futuro. Dessa maneira, o proprietário da terra tem direito a receber um percentual do lucro.
➡️Mas, atenção: primeiro a agência precisa analisar se vale a pena explorar a bacia, já que outros achados parecidos se descartaram por serem acúmulos pequenos.
Esse repasse financeiro, garantido por lei, pode chegar a até 1%, dependendo de vários fatores que precisarão ser avaliados.
Em resumo, embora o agricultor não tenha a titularidade sobre o recurso e não possa vendê-lo por conta própria, ele tem o direito de receber essa compensação financeira caso a extração comercial se concretize.
Descoberta por acaso
A substância semelhante a petróleo foi encontrada em novembro de 2024, enquanto o agricultor Sidrônio Moreira perfurava o solo em busca de água para abastecimento de animais da sua propriedade, na localidade de Sítio Santo Estevão.
Um vídeo gravado pela família em novembro de 2024 mostra o momento em que Sidrônio e a equipe contratada furaram o primeiro poço. Em determinado momento, um líquido escuro emerge do buraco e o agricultor chega a comemorar, pensando se tratar de água. Semanas mais tarde, porém, a família descobriu que o líquido pode ser petróleo.
📍Localizado a cerca de 210 quilômetros de Fortaleza, Tabuleiro do Norte fica na divisa com o Rio Grande do Norte e faz parte da região do Vale do Jaguaribe. A região fica próxima à Bacia Potiguar, uma área de exploração de petróleo localizada entre o Ceará e o Rio Grande do Norte. Tabuleiro do Norte não está inserido em nenhum bloco de exploração de petróleo, mas a localidade onde a substância foi descoberta está a apenas 11 quilômetros do bloco de exploração mais próximo.
A família e o IFCE procuraram a ANP ainda em julho de 2025 informando da descoberta, mas desde então a agência não havia respondido. Somente no dia 25 de fevereiro deste ano, o órgão se manifestou, respondendo a um pedido de informação do g1. Na comunicação, a Agência disse que iria abrir um procedimento administrativo para investigar o caso. Porém, informou que não há data de conclusão.
💧Necessidade de água continua
Enquanto não recebe confirmação da ANP, a família de Sidrônio vive na incerteza. A residência onde a família vive, na localidade de Sítio Santo Estevão, a cerca de 35 quilômetros da sede do município, não possui água encanada.
De acordo com o gerente de vendas Saullo Moreira, filho de Sidrônio, a propriedade até recebe água de uma adutora do município, mas o abastecimento é intermitente e, muitas vezes, não é suficiente para um mês inteiro. Muitas vezes, eles precisam comprar água de carro-pipa para abastecer a propriedade.
A descoberta do óleo na propriedade e os custos da perfuração do solo dificultam a abertura de um novo poço. A família foi alertada, por exemplo, que se um poço fosse perfurado incorretamente, o óleo poderia vazar para o lençol freático e contaminar a água da região. Por isso, eles aguardam resposta da ANP para saber como proceder.
Para pagar a perfuração do primeiro poço, Sidrônio pegou um empréstimo de R$ 15 mil e ainda usou parte das suas economias. Após a frustração inicial, a família chegou a furar um segundo poço, mais raso. Entretanto, também não encontrou água. Desde então, eles aguardam uma orientação da ANP.
“O que a gente queria era água, né? O que a gente queria era solucionar o problema da água lá, até porque meu pai já é idoso, gosta de criar esses animais. Hoje, eu queria que, se fosse petróleo, a gente resolvesse o mais rápido possível pra ele ter essa forma de renda extra e aí sim, se tiver uma forma de renda extra, ele conseguir, de alguma forma, levar a água, nem que seja mais próximo. Hoje, eles compram carro-pipa quando falta [água] por muito tempo. E aí, se ficar, se tiver algum recurso, eles podem comprar com mais frequência”, disse Saullo.
⛽O que acontece agora?
As análises feitas pelo IFCE e pela Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa), em Mossoró, confirmaram que o líquido encontrado em Tabuleiro do Norte é um tipo de hidrocarboneto. Em termos de densidade, viscosidade, cor e cheiro, ele se assemelha ao petróleo encontrado nas redondezas.
Apesar disso, somente após análise de um laboratório credenciado pela ANP será possível afirmar se a substância realmente é petróleo.
Após a descoberta de uma possível jazida de petróleo e notificação, a ANP deve iniciar uma série de procedimentos para averiguar as condições da área. Entre eles estão a análise do subsolo, o tamanho do poço e a composição química do líquido.
O território do município de Tabuleiro do Norte não está inserido em nenhum bloco de exploração de petróleo, no entanto, a localidade onde a substância foi descoberta está a apenas 11 quilômetros de distância do bloco de exploração mais próximo, o que, somado ao resultado da pesquisa do IFCE, sugere a possibilidade de realmente existir petróleo na região.
A descoberta de petróleo não significa necessariamente que a exploração da área seja possível ou financeiramente vantajosa. Após a confirmação e delimitação das jazidas, a ANP divide a região em blocos de exploração, que serão leiloados para empresas realizarem a exploração de petróleo.
Muitas vezes, uma área já mapeada e liberada para exploração pela ANP não atrai interesse de investidores devido ao tamanho da jazida ou à dificuldade de extração. Além disso, outros motivos podem ser o custo da instalação da operação ou mesmo a baixa qualidade do petróleo. Isso exigiria mais gastos no processo de refino.