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Wanderson Medeiros
Wanderson Medeiros, o Picui?, chef “casamenteiro” de São Miguel dos Milagres, em Alagoas – Imagem: @ruinagaefotografia

Quem ouve Wanderson Medeiros falando sobre suas “noivinhas” e os luxuosos buffets das festas em São Miguel dos Milagres, em Alagoas, não imagina que a carreira na cozinha começou ainda na infância.

Nascido na pequena Picuí, no Seridó paraibano, o chef herdou da cidade o apelido e da família o processo da carne de sol – o produto mais famoso de sua terra natal.

A história é lúdica, mas não é. Não tive outra opção. Meu bisavô começou a produzir carne de sol em 1889, meu avô fazia carne de sol, meu pai fazia carne de sol…

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Picuí
Wanderson Medeiros, o Picuí – Imagem: @ruinagaefotografia

E com um guardanapo, Picuí desenha a rua da casa da avó, que ficava ao lado da padaria, perto da granja onde ele brincava de depenar frangos, de frente para o mercado, no caminho da banca de carne do pai, não muito distante da casa da maior banqueteira da cidade.

Nesse ambiente, o chef assava castanhas, debulhava milhos para a avó Joana e ajudava a pintar docinhos com a mãe Fátima, vendia “dindin” (geladinho ou sacolé em outros cantos). E produzia balas. Não as de comer.

Em 1989, seu pai, Rosimério Anacleto, comprou uma casa em Maceió e abriu o restaurante Carne de Sol do Picuí. No ano seguinte, Wanderson e a irmã iriam para a capital. De olho na compra de um aquário, aos 12 anos, Picuí começou a ajudar no salão.

Descasquei a macaxeira, fazia faxina, trabalhava pegando bebida no caixa, no salão. Desde moleque eu achava que se alimentar bem era importante para o organismo. Aos 16, eu queria ser vegetariano, lembra.

Carne de sol com pirão de queijo coalho é um dos pratos principais do restaurante Picuí – Imagem: Divulgação

O encantador de gente

Em 1999, após uma reforma grande, o estabelecimento só cresceu e ganhou mais e mais fama. E mais gosto do jovem que se dividia entre obra e faculdade. Mas a cozinha ainda não era nem paixão, nem função.

O primeiro amigo ilustre foi Rodrigo Mocotó Oliveira, que buscava orientações sobre a carne de sol mais famosa do Brasil. O grande primeiro reconhecimento foi a estrela do Guia Quatro Rodas (na época, 2007, uma espécie de Michelin no Brasil). O primeiro choque foi o sucesso do sushi em São Paulo, “que circulou na boca por horas”. Mas Picuí também seria um convertido ao peixe cru.

“Comprei um livrinho, os ingredientes e aí comecei a fazer sushi. Primeiro com meus amigos, depois para mais e mais gente. E de sobremesa sempre era brownie, eu era viciado”, conta.

Depois de um traumático evento em que 20 pessoas viraram 40 e depois 60, o chef prometeu que nunca mais arriscaria a culinária japonesa, mas botou na cabeça: “se eu aprendi a fazer sushi, eu aprendo a fazer qualquer coisa”.

O chef Wanderson Medeiros, do Picuí, em 2014 – Imagem: Divulgação

Curso rápido

Com isso, fez um curso rápido de cozinheiro auxiliar no Senac-AL e aprendeu a fazer arroz, feijão e mais bases da culinária. Para treinar, o restaurante da família foi ideal. E nas revistas e TV, testava todas as receitas que apareciam pela frente.

E não bastava fazer bem e deixar gostoso, precisava ficar bonito. “Eu gostava de encantar as pessoas e gosto até hoje”, afirma.

Apesar de chamar atenção regional, estar em revistas, programas de TV, eventos por todo o Brasil e ter reconhecimento de muita gente na gastronomia de norte a sul, Picuí não se sentia poderoso como cozinheiro.

Eu não tinha noção do que era ser um chef de cozinha. Eu achava que era quem sabia fazer tudo e eu não sabia nem fazer feijoada. Me sentia uma fraude.

Sucesso para multidões

A certeza de um rumo certo, talvez, aconteceu em um reconhecimento mais aguardado: fazer parte da Associação dos Restaurantes da Boa Lembrança.

Nas idas a São Paulo, mais investigação: “ia para todos os restaurantes que tinham estrela, chegava no restaurante sozinho, fazendo as anotações, pedia uma entrada, ou um prato, às vezes uma sobremesa e ia embora. O povo enlouquecia”, lembra.

Foram muitas aulas, palestras, festivais, contatos, receitas e mais: além de chef, Wanderson também se consolidou como fotógrafo gastronômico, colunista na revista S.Mag e conquistou um quadro diário no programa Feito Para Você, na TV Record-AL.

A popularidade atraiu pedidos para além do círculo gastronômico. Aniversários, encontros de cada vez mais gente, a organização de mesas cada vez mais caprichadas e chamativas.

Em 2014, fui fazer o casamento de uma grande amiga. A família me adorava, mas não achou que daria conta de um evento para quase 500 pessoas. Deu certo.

Mais um evento

No ano seguinte, outro evento gigante. Desta vez, na Praia do Francês, em Milagres, no dia 4 de novembro – sim, o chef lembra dos nomes, datas, estrutura e o que serviu. Em 2016, mais um. Desta vez na Capela de Milagres recém-aberta.

A partir daí, eles não pararam mais. Milagres virou destino de casamento. Hoje, sem dúvida, é o mais procurado do país. E a gente estava muito preparado para isso por esse capricho com a louça, com a apresentação, com a comida”, se orgulha.

Em contas recentes, num improvável tempo de descanso, Picuí calculou que faz, em média, 150 eventos por ano. Desde um encontro para 20 pessoas até Réveillon para 3.000 pessoas.

Cabeça de toda a operação com 60 funcionários fixos do W Gourmet, seu serviço para eventos, Picuí lamenta, mas assume que não conseguiria mais voltar para a jornada em uma cozinha. No final de 2021, abriu o Canto do Picuí em São Paulo, com autêntica culinária alagoana na Rua Ferreira de Araújo, em Pinheiros. Apesar da boa recepção do público, a casa foi fechada em 2025.

Picuí, em frente à famosa capela de São Miguel dos Milagres, em Alagoas – Imagem: Divulgação

De volta para o aconchego

Uma vez por ano, porém, ele abre uma importante exceção e volta toda a atenção e coração para as panelas. Na verdade, uma enorme panela.

Há três anos, na Festa de São Sebastião, padroeiro de Picuí (a cidade), o chef cozinha seu tradicional Baião de Dois no centro da cidade.

Em 17 de janeiro deste ano, Wanderson montou na praça principal, em frente à igreja, uma panela com quase dois metros de diâmetro, e combinou carne de sol, queijo coalho, feijão verde e arroz, linguiça defumada, bacon e manteiga de garrafa, para ser servido aos moradores e visitantes da cidade.

Foram servidas, em média, 500 pessoas, R$ 15 por prato e toda a renda arrecadada é destinada à igreja.

Cozinhar na minha cidade tem um significado muito especial. É voltar às origens e dividir a comida com quem fez parte da minha história. Poder oferecer esse prato ao meu povo, no meio da praça, é algo muito gratificante, se emociona.

Entre o catolicismo e o amor por Iemanjá, Picuí tem um quê de Santo Antônio, que, no século 13, ajudava mulheres pobres a conseguirem o dote necessário para casar e ganhou a fama de casamenteiro por isso.

Nada de cabeça para baixo para o chef, porém. Para dar certo com ele, basta colocar Milagres in seus planos de amor e, claro, esperar uma vaga na disputada agenda do buffet.

UOL

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