
Você é adicionado a um grupo no WhatsApp com dezenas de pessoas. Entre elas, vítimas e golpistas. As primeiras mensagens parecem confusas, até que surge a proposta: uma tarefa simples, com pagamento rápido. Curtir uma postagem ou avaliar um produto em troca de cerca de R$ 10. É assim que começa um golpe que simula renda extra, mas evolui para um esquema que exige depósitos e promete ganhos maiores. Quem entra, muitas vezes acaba preso a uma dinâmica que lembra pirâmide financeira — e perde dinheiro aos poucos.
Foi o que aconteceu com uma vítima ouvida pelo TechTudo, que preferiu não se identificar. Ela afirma ter perdido mais de R$ 5 mil. A seguir, entenda como funciona a estrutura do golpe e por que ele tem feito tantas vítimas.
Como funciona o golpe de tarefas
O golpe das tarefas remuneradas segue um roteiro bem estruturado, pensado para ganhar a confiança da vítima antes de exigir pagamentos maiores. De acordo com a vítima, tudo começou com um contato inesperado no WhatsApp. Conhecido como Engenharia Social, a mensagem costuma oferecer uma oportunidade de “renda extra” com tarefas simples, sem exigir experiência. Em alguns casos, a vítima é adicionada diretamente a um grupo com outras pessoas — que podem ser, na verdade, perfis controlados pelos próprios golpistas. “Depois de ter caído no golpe que percebi que muitos que perguntam sobre o que é o golpe e “fazem a tarefa” também são golpistas se passando de vítimas”, comenta.
Após o primeiro contato, surgem atividades básicas, como curtir vídeos, seguir perfis ou avaliar produtos. “Eu fui adicionado recentemente a um novo grupo, mas já estava ciente do que era”. Nesse caso, a primeira tarefa era curtir uma venda na Shopee para receber uma recompensa de R$ 8. “Eles pagam mesmo nesse início, para ganhar a confiança”. Para tornar o esquema mais convincente, os golpistas costumam pagar pelas primeiras tarefas. Esse valor baixo, mas real, funciona como prova de legitimidade e reduz a desconfiança da vítima.
Com a confiança estabelecida, a vítima é direcionada para grupos mais ativos, muitas vezes também no Telegram. Neles, surgem as chamadas “missões”, com promessas de ganhos mais altos, mas que exigem algum tipo de investimento inicial. Segundo a vítima, que prefere permanecer anônima, o grupo é movido por golpistas e vítimas falsas que “fazem as tarefas” para convencer as reais vítimas do grupo.
Para acessar tarefas mais lucrativas ou liberar saques maiores, a vítima é orientada a fazer transferências, geralmente via Pix. Os valores começam baixos, mas aumentam progressivamente. “Quanto mais eu dava, mais eu recebia. Mas chegou a um ponto em que eles me bloquearam e sumiram com o meu dinheiro. Geralmente, quando percebem que sugaram tudo”, relata.
Após uma ou mais transferências, os golpistas deixam de responder, bloqueiam a vítima ou inventam novas taxas para liberar o dinheiro. No fim, o saldo prometido nunca é pago, e o prejuízo pode chegar a milhares de reais.
Por que as pessoas caem no golpe da renda extra
O golpe das tarefas remuneradas explora mecanismos psicológicos simples, mas eficazes, para reduzir a desconfiança e manter a vítima engajada. Um dos principais fatores é a promessa de dinheiro fácil com baixo esforço. As tarefas propostas são simples e rápidas, o que dá a sensação de ganho imediato e acessível.
De acordo com o Anuário de Segurança Pública, 1 em cada 3 brasileiros adultos foi vítima de algum golpe ou fraude digital no ano de 2025. No mesmo período, 36,3% dos brasileiros, o equivalente a 61,3 milhões de pessoas, relataram ter sido alvo de uma tentativa de golpe ou fraude digital.
Uma das principais armas desse crime organizado é a confiança construída: o pagamento inicial é real. Ao receber pequenas quantias nas primeiras interações, a vítima tende a acreditar que o esquema é legítimo, o que facilita aceitar etapas seguintes que envolvem depósitos.
Há também o uso de prova social. Grupos com dezenas ou centenas de participantes, mensagens frequentes e supostos comprovantes de ganhos criam a impressão de que outras pessoas estão lucrando com a atividade.
Segundo um estudo feito pela Silverguard em 2025, empresa de inteligência contra golpes financeiros, R$ 51 bilhões é o prejuízo total estimado com golpes de engenharia social. Desses, R$ 29 bilhões envolvem golpes do Pix. Além disso, aplicativos de mensagem ainda são o principal ponto de partida dos golpes, seguido pelas redes sociais.
A dinâmica do golpe envolve um senso de urgência e progressão. As oportunidades aparecem como limitadas ou temporárias, incentivando decisões rápidas, muitas vezes sem a devida verificação, e levando a vítima a investir valores cada vez maiores na expectativa de retorno. Ainda de acordo com o estudo, a perda média das vítimas em golpes é de R$ 2.540, sendo 5x maior entre idosos. No caso da vítima entrevistada pelo TechTudo, no ano em que caiu no golpe, possuía 29 anos e perdeu cerca de R$ 5 mil ao todo em transferências via Pix.
O que fazer se receber a mensagem
Ao identificar uma oferta de “renda extra” com tarefas simples no WhatsApp, a recomendação é não interagir. Esse tipo de abordagem costuma ser o primeiro passo de um golpe. Em seguida, o ideal é bloquear o número e denunciar a conversa dentro do próprio aplicativo. O WhatsApp permite reportar contas suspeitas, o que ajuda a reduzir a disseminação do golpe.
Outra medida importante é não compartilhar o conteúdo com outras pessoas sem contexto, para evitar que mais usuários sejam expostos à fraude. Caso a abordagem envolva nome de empresas conhecidas ou propostas de trabalho, vale verificar diretamente nos canais oficiais antes de considerar qualquer ação.
Caí no golpe, e agora?
Se você já fez algum pagamento após receber propostas de tarefas no WhatsApp, é importante agir rapidamente. Pare de responder às mensagens e não realize novos pagamentos, mesmo que os golpistas prometam liberar valores já “acumulados”. Entre em contato com sua instituição financeira e informe que foi vítima de golpe. Se a transferência foi via Pix, solicite a abertura do Mecanismo Especial de Devolução (MED), que pode ajudar a recuperar o valor em alguns casos.
Reúna as provas: guarde prints das conversas, comprovantes de pagamento, números de telefone e qualquer outro dado relacionado ao golpe. Essas informações são essenciais para investigação. E registre um boletim de ocorrência, como fez a vítima.
Além disso, fique atento a movimentações bancárias e a possíveis tentativas de novos golpes. Em alguns casos, vítimas podem ser novamente abordadas pelos mesmos criminosos, como foi o que aconteceu com a vítima entrevistada para esta matéria.